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BIDE - O LEGADO DE UM PATRIARCA

BIDE - O LEGADO DE UM PATRIARCA

por Wellington Nery

 

A minha ligação com meu amado avô sempre transcendeu a materialidade do espaço e a transitoriedade do tempo: para mim, meu Bide sempre foi, é e sempre será eterno em amor, memórias, ensinamentos, caráter e tudo de bem e de bom que um homem pode ser. Na quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011, à 2h32min, aos 90 anos de idade, a luz de Alcebíades Lopes Gonçalves transcendeu nosso vulgar plano terreno e foi brilhar no Céu junto ao Deus Pai, pois já cumprira sua missão de nos aquecer, guiar e iluminar. Como singela homenagem, republico texto que tive o prazer de tornar público em 2010, mais precisamente no dia 8 de dezembro, quando meu Bide completava 89 anos de uma vida profícua, produtiva e feliz. Se entre nós estivesse, meu amado Bide completaria 97 anos, no último dia 8 de dezembro de 2017, data em que se comemora o Dia da Família, instituição que ele tanto honrou e personificou em vida. Sinto saudade, mas não falta, pois tu foi, é e sempre será presente em minha vida, vô Bide!

Sei que ao constantemente recorrer aos ensinamentos herdados de meus familiares e escrever sobre a felicidade que sinto em poder relatar a alegria desse convívio sadio e prazeroso, não agrado a todos os meus leitores, sobremaneira, aos colegas escribas como eu, que seguem a correta, porém insossa, métrica da impessoalidade em nossa lide diária. Entretanto, não me furto a homenagear quem eu amo e admiro por receio de torna-me ridículo aos olhos alheios. Já dizia o poeta: somos todos ridículos quando amamos.

Pois bem, no dia 8 de dezembro de 1920, nascia Alcebíades Lopes Gonçalves, meu amado vovô Bide, patriarca de minha família materna. Hoje, ao completar 89 anos de uma vida produtiva e honrada, esse nobre homem simples, homem de fé inabalável, homem de tez altiva e voz pacífica, deixa conosco, seus familiares e aos que com ele tem o prazer do convívio, um legado de valor inestimável, uma herança infinita, um patrimônio frondoso e frutífero, um exemplo incomum e invulgar: dignidade, altruísmo, bondade, amor e fé, são suas marcas

Da infância dura, quando teve de largar seu rincão tomado pela miséria, pela fome e pela violência dos tempos sem lei, chegando a esmolar para dar o de comer para seu pai cego, sua mãe em estado de doença terminal e seus irmãos menores famintos, ficou a dignidade ao atravessar penosa jornada sem suas mãos sujar com o rancor e a desesperança alheia.

Da juventude laboriosa, explorada entre enxadas, facão de corte, pá de cimento, colher de pedreiro e martelo de prumo certo; Do moleque de mandado dos manda-chuvas da imberbe Cidade Sol, do primeiro telefonista de Jequié, do "grilo" do futebol e da batucada dos Imperadores do Samba no carnaval ingênuo e romântico de priscas eras, ficou o sorriso, a alegria e a felicidade de poder dizer em alto e bom som: eu sobrevivi e vivi!

Da meia idade responsável, pai de família zeloso, comerciante cativante e criterioso, em sua "venda" nada faltava, em sua bodega nada se perdia, em seu local de trabalho tudo se valorizava com justeza e previdência. Homem de palavra, homem de crédito e de vergonha, coisa rara hoje em dia. Desse tempo ficou o exemplo de bondade caridosa e de altruísmo patriota.

Bide sempre foi um homem de fé. Membro dos mais antigos da 1ª Igreja Batista de Jequié e fundador da 1ª Igreja Betânia, edificador de prédios e de almas, não só com sua colher de mestre pedreiro, o "pedreirinho de Conquista", o construtor das pontes impossíveis, das ruas desafiadoras, das casas iniciais das localidades equidistantes, dos fogões de lenhas e das chaminés até então inimagináveis, mas também, o mestre das palavras, o sábio da sensibilidade, o orador nato, a voz que cala a alma, que clama a luz divina e transpira esperança e fé onde antes perduravam a dor, o medo e o abandono.

Da maturidade, meu Bide, fica a certeza do dever cumprido, da vitória em vida, dos filhos e netos criados para o bem. Fique tranquilo, meu doce e bom velhinho, de tua raiz nasceu árvore frondosa, de frutos sadios, que registrarão em sua caminhada a história e as estórias de tua vida, exemplo de amor e de fé.

Te amo, meu Bide, minha luz mais cintilante, meu farol em tempos de tempestade, minha bússola norteadora. Desse teu neto, hoje um pai babão, terá sempre o reconhecimento e a reverência. Que nosso amado Deus Pai permita-nos estender por longos anos esse nosso enriquecedor convívio, pois muito ainda tenho que contigo aprender, meu velho amigo, meu mestre.

Essas parcas palavras, desse escriba menor, são para te dizer e a todos que paciência e bondade tiverem para me honrar com tal leitura, o quanto tu és importante para mim, para minha vida, para minha descendência. Saúde, amor e paz é o que te desejo, meu Bide!

Graças a Deus pude publicar esse texto com meu avô Bide ainda vivo. Tudo o que ele representou e ainda representa para mim, ele ouviu de mim em vida. Pouco mais ele partiu e na ocasião republiquei acrescentando o parágrafo inicial e a frase abaixo.
Com a serenidade que ora invade meu ser, digo a ti: vá com DEUS e descanse em paz, meu amado BIDE! Hoje republico em sua honrosa memória.

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