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Luiz Melodia morre aos 66 anos. “Em Jequié ninguém me enche o saco!” Disse Melodia.

Luiz Melodia morre aos 66 anos. “Em Jequié ninguém me enche o saco!” Disse Melodia.


Luiz Melodia morre aos 66 anos. “Em Jequié ninguém me enche o saco!” Disse Melodia.

O cantor, compositor e músico carioca Luiz Carlos dos Santos, o Luiz Melodia, morreu na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer que atacou a medula óssea. Melodia morreu na madrugada de hoje(04), por volta das cinco horas da manhã. A informação foi confirmada ao colunista musical do G1 por Renato Piau, guitarrista que tocou com Melodia, após ligação para a família do artista. Melodia chegou a fazer um transplante de medula óssea e resistiu ao procedimento, mas não vinha respondendo bem à quimioterapia. O câncer voltou e o estado de saúde de Melodia se agravou bastante ontem. O artista estava internado no hospital Quinta D'Or.

Confira a entrevista que Luiz concedeu ao site Gafieiras em 2002 –

Max Eluard – O que a música significa para você, Luiz?

Melodia – Significa muito, embora eu não esteja compondo assim. Tô tão de saco cheio que não tenho composto. Mas tenho escrito, tenho mandado minhas… [ri] Nos dois últimos discos meus fui eu que escrevi tudo. Nunca fiz isso. “Vai, musique aí?” Geralmente, faço, vou escrevendo, pá!”

Almeida – Quem são esses parceiros?

Melodia – Perinho Santana. Nunca nenhum conhecido, porque não sei se os caras vão fazer. Eu mandei uma vez para o Caetano Veloso e não tive resposta. Aí, o Renato Piau musicou “Morena da novela” [n.e. Incluída no CD 14 quilates, de 1997]. Mas eu havia mandado essa letra para Caetano Veloso. Não mandou recado, não falou nada. Beijinho, beijinho, tchau, tchau! E tenho escrito com o Ricardo Augusto, que é um parceiro que eu gosto.

Almeida – Que é o baiano.

Melodia – Que é o baiano. Na verdade, são todos baianos, menos o Renato Piau. Mas a maioria dos compositores com quem ultimamente tenho composto é baiana. Já pensaram, inclusive, até que eu fosse baiano, mas não sou baiana. Baiana é a Jane, de Jequié.

Sampaio – Jequié?

Melodia – Conhece Jequié?

Sampaio – Conheço.

Melodia – Vou passar a Festa Junina lá. Estamos marcando de ir. Sempre vou pra lá. Acho o máximo. Ninguém me conhece, ninguém me enche o saco, é bom pra caralho! Ela já não curte. Cria de lá, né? O Wally Salomão é de lá. Ele e o Jorge, lógico, são irmãos. Cidade pequenininha, mas maravilhosa. Gosto pra caramba.

Tacioli – Mas essa relação nos grandes centros te incomoda?

Melodia – Ah! Incomoda. E outra: comentei um dia desses que tem horas que o sucesso é repugnante. Legal, sucesso, sucesso e tal. Mas, porra, gosto de uma vida simples, nasci e fui criado no morro, então… Gosto de entrar em um boteco, “Alô, compadre”, trocar uma idéia, jogar um futebol, enfim, de não ter pessoa me enchendo o saco.

Max Eluard – Tudo vira um evento.

Melodia – É, velho, aí não dá pra mim, não consigo, me dá agonia. Me dá muita agonia.

Almeida – Luiz, você vê alguma contradição nisso, do cara batalhar pra conseguir uma notoriedade, independentemente de sua origem, e quando isso rola, nego vem pedir autógrafo e, “Porra, mas que saco, estou andando aqui na calçada, quero ficar sozinho!”?

Melodia – Posso falar por mim? [risos]

Almeida – Aliás, porque de notório aqui só tem você. [risos]

Melodia – Às vezes, têm uns caras que estão interessados em fazer sucesso, de botar pra foder… A minha intenção é fazer o meu trabalho. Quando saquei que compunha, que eu fazia um trabalho legal e que as pessoas gostavam – como o Wally Salomão ficou tão encantado com o que eu escrevi –, falei “Que barato!” Então, quero mostrar o meu trabalho. Mas nunca pensei que fosse tão mesquinho, velho! E que pudesse, nesse tempo todo de música, me fazer quase parar com a música. Parar, parar de viajar, da mídia, ir embora. Fazer música, lógico, mas sem… Entendeu o que eu quis dizer? Sem estar ligado com a música. Várias vezes, essa coisa me deixou bem enojado.

Seabra – O que ou que situação te deixou enojado assim?

Melodia – Essa situação de “Você é maldito!”, uma coisa de 200 anos. E aí “Você é maldito ou não é?” Ou, de repente, você está à vontade com a sua mulher ou com amigos, os caras chegam “Alô, é o seguinte…” Eu me sinto sufocado, velho! Essas situações, essas relações me deixaram assim. E de você fazer um trabalho, que me parece digno, que muita gente está a fim de ouvir, e que não chega em suas casas. Isso porque a gravadora, simplesmente, não faz nada, velho! Você entra em um estúdio, grava – já gravei por várias gravadoras – e não acontece porra nenhuma! Aí, você que é um filho-da-puta. Essas besteiradas! Enquanto, que porra, componho, vamos trabalhar. Assinei contrato com a gravadora, faço o meu trabalho, compadre, e você, faça o seu, porra! Vamos chegar junto, como estou fazendo agora. Estive em várias gravadoras consideradas grandes, e não aconteceu nada, velho! Picas! E acho que gravei uns discos legais. E nada. O que é? Um hobby. “Vou trazer Luiz Melodia.” Um hobby! “Vou trazer Luiz Melodia para a minha gravadora!” Hobby! “Odeon.” Hobby. “Philips.” Hobby. Não, velho, enche o saco! Essas coisas começaram… E tem me deixado, porra, chateado.

Denise – Você quer mais alguma coisa, Luiz?

Melodia – Traga mais cerveja.

Ele cantava que o nome dele era ébano na música que defendeu no festival Abertura, exibido pela TV Globo em 1975. Na certidão de nascimento, o nome era Luiz Carlos dos Santos. Mas o Brasil o conhecia mesmo pelo nome artístico de Luiz Melodia. Nascido em 7 de janeiro de 1951 no morro do Estácio, o bairro da cidade natal que ele cantou poeticamente em um dos sambas mais conhecidos do repertório gravado a partir da década de 1970, Luiz Melodia saiu de cena hoje em decorrência de complicações de um câncer de medula óssea conhecido cientificamente como mieloma múltiplo, mas fica eternamente em lugar de honra na história da música brasileira.

Tinha 66 anos de vida e 46 de carreira, se estabelecido como marco zero da trajetória profissional o lançamento da música Pérola negra em 1971 na voz de Gal Costa. Pérola negra era um dos destaques do show Fa-tal – Gal a todo vapor. No ano seguinte, Maria Bethânia lançou o samba Estácio, Holy, Estácio no álbum Drama (1972), abrindo caminho para que Melodia lançasse em 1973 pela gravadora Philips o primeiro álbum, Pérola negra, um dos clássicos da música brasileira de todos os tempos.

O romantismo ingênuo do cancioneiro da Jovem Guarda, influência assumida do cantor, ficaria mais evidente em álbuns posteriores com regravações de sucessos da turma comandada por Roberto Carlos em 1965, época em que Melodia ainda frequentava programas de calouros em busca do lugar ao sol que não havia conseguido com a formação de conjunto efêmeros, como Os Filhos do Sol e Os Instantâneos, para animar bailes da juventude pop dos anos 1960.

De lá para cá, a partir especificamente da edição do álbum Pérola negra, Melodia firmou nome na música brasileira como um dos compositores de assinatura pessoal, delineada em posteriores álbuns autorais como Maravilhas contemporâneas (1976), Mico de circo (1979), Nós (1980), Felino (1983), Claro (1987), Pintando o sete (1991), 14 quilates (1997), Retrato do artista quando coisa (2001) e o derradeiro Zerima (2014). Grande cantor de voz aveludada, Luiz Melodia foi bamba que foi muito além do samba do Estácio.

 

RTVBrasil com informações do G1.


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